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Ele estava calado desde que perdeu as eleições para a presidência do Sport, no final do ano passado. Preferiu ficar recluso a falar e acabar sendo mal interpretado. Mas agora, devido ao terrível momento em que o Leão da Praça da Bandeira se encontra, ele bradou: “preciso falar”. Nesta entrevista exclusiva à Folha de Pernambuco, realizada na manhã da última sexta-feira, em seu escritório, em Boa Viagem, Homero Lacerda, 61 anos, ex-presidente rubro-negro, aponta quem são os responsáveis pela péssima campanha no Brasileirão, exime a atual diretoria de qualquer tipo de culpa, inclusive evitando citar o nome do atual mandatário, Sílvio Guimarães e, claro, como todo bom rubro-negro que é, acredita que o Sport dará a volta por cima mais uma vez, permanecendo, assim, na elite do futebol brasileiro.
Na sua opinião, por que o Sport está nessa situação?
Queria, antes de mais nada, de explicar o porquê de eu não ter falado com ninguém desde janeiro, quando perdi as eleições (para Sílvio Guimarães). Estou sendo convocado para dar uma entrevista faz tempo. Na liderança que eu represento no Sport, tudo que digo repercute muito e pode ser mal interpretado, pode ser interpretado como revanchismo. Quando Wanderson (Lacerda) assumiu, não falei nada (contra) e está sendo assim agora com Sílvio. Deixei o espaço total para as pessoas que estavam lá. Só que agora eu tenho dois fortes motivos para falar.
E quais seriam esses motivos?
O primeiro é que as pessoas estão me cobrando, me pedindo na rua sobre o que irei fazer a partir de agora. Tem gente, inclusive, que chega para mim e diz: ‘seu Homero, me desculpe por não ter votado em você’. Mas não tenho nenhuma mágoa deles, porque eu sei no que eles votaram: votaram no Sport campeão da Copa do Brasil, votaram em Milton Bivar. E é esse o real motivo de eu conceder esta entrevista. Quero fazer uma colocação muito séria e importante. O responsável por tudo que está acontecendo no Sport não é a diretoria que está lá. Eles não têm culpa de absolutamente nada. Nem de estarem ali. A responsabilidade é de Milton Bivar e Gustavo Dubeux.
Por quê?
Milton disse que era candidato, e uma parte do clube também queria que eu fosse, mas não fui para apoiá-lo mais uma vez. Quando ele disse que era candidato, todas as lideranças do Sport o apoiaram. Mas faltando seis dias para a eleição e 24 horas para encerrar as inscrições das chapas, ele saiu e colocou Sílvio Guimarães. Aí, durante uma reunião com um grupo de rubro-negros, fui convocado para criar a minha candidatura. E o pior não é isso. Ele, quando saiu, disse que tudo iria continuar do mesmo jeito, indo assumir o futebol juntamente com Gustavo Dubeux. E o Gustavo chegou dizer que seu irmão também ficaria ajudando e tal... Aí a torcida votou nisso, na presença deles, pensando a achando que seria o melhor. E realmente, com a conquista da Copa do Brasil, estava credenciado em continuar (dando certo).
Mas por que as coisas começaram a desandar?
Desde o dia da eleição, os dois abandonaram totalmente o clube. Milton Bivar e Gustavo Dubeux têm obrigação moral de voltar para lá, como eu tenho de cobrá-los. Primeiro porque sou amigo deles, com muito orgulho. Inclusive, na semana passada, conversei com Milton longamente, aqui no meu escritório. Disse: ‘Milton, você e Gustavo Dubeux têm a obrigação, porque a torcida não votou na diretoria que está lá. Votou em você. Por isso que você tem que retribuir’. Com Gustavo, que também falei, ele me disse que estava sem tempo. Não tem tempo? Falar que não tem tempo é dizer que o Sport não é importante para ele, porque tempo a gente tem. Você pode é não dar prioridade, porque temos de dez a 15 horas disponíveis para fazer o que quiser. Por isso que se o Sport for rebaixado, a obrigação é desses dois.
E a atual diretoria não tem participação no atual fracasso?
Eles não têm culpa nenhuma. Qual é a culpa de Guilherme Beltrão? A responsabilidade é deles dois. Até porque ele (Milton) disse que iria continuar. A chapa era Milton e Sílvio. E quem ganhou realmente (a eleição) foi Milton. Se ele colocasse José do Grude, José do Grude era o presidente do Sport. É como o Lula hoje, que quem ele botar para comandar o País, se tiver capacidade, fatalmente será eleito. Mas não estou cobrando como revanchismo. Estou cobrando para construir.
Por falar em construir, em algum momento, Sílvio Guimarães o procurou pedindo algum tipo de ajuda?
Não tem condição alguma, nem de diálogo. Existe uma incompatibilidade irreversível, e até prefiro não falar no nome dele, para não dar margem à resposta.
Durante essa semana, houve uma reunião entre Sílvio Guimarães e ex-dirigentes do Sport. O senhor foi procurado para comparecer no encontro?
Não soube dessa reunião.
Mas o senhor ficou chateado com a derrota nas eleições do ano passado, com 80% de diferença?
Não fiquei. Muito pelo contrário. Não guardo mágoas. No mundo atual, o nosso coração não tem espaço para mágoas. Só temos que pensar em coisas boas, em energias positivas, em ir para frente.
Falando agora no Campeonato Brasileiro, o Sport ocupa a lanterna da competição. Isso quer dizer que o rebaixamento à Série B está confirmado?
Acho que estão subestimando o Sport. O Sport é capaz de mostrar a sua grandeza nos momentos de maior adversidade. Isso é um desafio. Acho que o Sport tem que levantar a cabeça e partir para cima do problema. Essa é a solução, e o rubro-negro gosta de desafio. Se começar a reagir, se ganhar três partidas seguidas, a torcida vai à loucura. Sair do rebaixamento será como um título brasileiro. É mais importante não ser rebaixado do que ser campeão.
E se não conseguir?
Se for rebaixado, o prejuízo do Sport chegará na casa dos R$ 20 a R$ 30 milhões, entre dinheiro dos sócios, patrocínios, verba do Clube dos 13 e, principalmente, a autoestima do torcedor. Eu tenho a autoridade de cobrar isso pela minha história, pela amizade com eles (Milton e Gustavo) e pela possibilidade de dar a minha contribuição. Por isso se o Sport for rebaixado, eles ficarão devendo isso até o resto da vida a Pernambuco e a três milhões de rubro-negros.
Agora, como um time que disputou a Libertadores, chegando a ser elogiado pelo Brasil inteiro, caiu tanto de rendimento?
Aí existem duas verdades no futebol. Existe a verdade vista de fora para dentro, vista pelo torcedor, e outra vista mais próxima pela Imprensa, mas mesmo assim é de fora para dentro. Não quero me referir ou fazer alguma crítica a nada que esteja acontecendo agora. Não sou a pessoa indicada para isso. Prefiro dar uma contribuição aos rubro-negros, caso eu possa passar um pouco da minha experiência. A grande diferença das duas visões é que, de fora para dentro, quando há algo errado, falam logo que precisa contratar dez jogadores. Se o time vai ruim, precisa trocar de técnico. Claro que o treinador é importante, mas não é só isso.
E o que seria o mais importante?
Para obter sucesso dentro do futebol, é preciso ter estrutura no futebol. Um exemplo para o mundo inteiro de planejamento e estrutura no futebol é o São Paulo. Lá, entra técnico e sai técnico, e o time continua bem. A mesma coisa é com os jogadores, que sempre se apresentam com a mesma determinação, preparo físico e equilíbrio emocional. Coisa que fiz, junto com Adelson Wanderley, em 2006, com a implementação da medicina ortomolecular e esportiva, com a compra de equipamentos de última geração, além das palestras com os melhores profissionais do Brasil e da América Latina. E o resultado foi espetacular. Conquistamos o Pernambucano de 2006, que considero o mais importante e difícil da história do clube, quando batemos um timão que o Santa Cruz tinha. Por isso digo que é necessário fazer futebol com planejamento. Gostaria muito de ter assumido o clube (nas últimas eleições). Pela primeira vez na história, eu pegaria o Sport bem. Mas vale lembrar que sempre deixei o clube na Primeira Divisão e nunca fui rebaixado.
Nessa semana, o presidente da Federação Pernambucana de Futebol, Carlos Alberto Oliveira, disse que o Sport seria rebaixado. O que o senhor acha da opinião dele?
É que Carlos Alberto é um rubro-negro, um desportista, que extrapola até a emoção. O torcedor extrapola o coração, como Jarbas Vasconcelos também fez. É o amor pelo Sport que fala mais alto. Ele está tão ferido pela possibilidade (de queda) que acaba falando. Mas não é apenas Carlos Alberto que está falando isso, 90% da torcida também tem a mesma opinião.
Mas ainda dá para o Sport escapar do rebaixamento?
O Sport tem que acreditar mesmo que haja apenas 1% de chance, tem que partir para cima valendo, como um desafio. Acho que o Sport pode sair do rebaixamento. Claro que pode! O Sport é grande, tem elenco, tem torcida, e profissionais sérios para isso.
Se o senhor tivesse sido eleito (as últimas eleições aconteceram em dezembro de 2008), como o Sport estaria hoje?
Estaria completamente diferente. Não é nenhuma critica, nem quero dar cabimento, mas acho que pensamento dentro do Sport tem que ser de empresário, e não de gerenciar. Quem vive de orçamento é assalariado, com todo o respeito. Empresário investe para ganhar mais. O Sport montou uma renda no início do ano, que nunca teve em 104 anos de história. Uma previsão de faturamento que nunca teve, com a manutenção das cadeiras, expectativa de Libertadores, Clube dos 13, dinheiro de patrocinadores nunca teve tanto, e a torcida lá em cima. Vou dizer uma coisa aqui que não disse à época porque poderia passar a impressão de promessa de candidato. O Sport precisava contratar apenas quatro jogadores, e não 15, 16 ou 17. Seriam eles: Leandro Amaral, Marcelinho Paraíba, Juninho Pernambucano e um lateral-direito. Não abria mão de Juninho Pernambucano participar da Libertadores de jeito nenhum. Meu Deus do céu, imagina esses três aí jogando juntos com a nossa defesa, dando continuidade na medicina ortomolecular... brigaríamos pelo título. A LDU não conquistou? Por que nós também não poderíamos? Teríamos ferramenta para isso.
O senhor sempre falou que, com classificação obtida para disputar a Libertadores, o Sport não poderia perder o ‘bonde da história’. E agora, o Sport parou na história, ou ainda dá tempo de alcançar esse bonde?
Perdeu o bonde. Esse não passa mais.
por: FELIPE AMORIM
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